Último dia de seminário promoveu discussões sobre o papel da infância na construção de uma sociedade mais justa
- viiseminariobaciac
- 26 de mai.
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As rodas de conversa da manhã se dedicaram ao fortalecimento do protagonismo na infância

Neste sábado, a programação do último dia do VII Seminário Internacional contou com conferência e rodas de conversas, que trouxeram diálogos sobre o legado dos povos antigos refletidos na sociedade brasileira e o papel da troca de saberes da infância com o território.
O dia começou com o anúncio de dois cursos de pós-graduação comunicados por Fabiano Piúba, secretário de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura do Brasil, Andrea Pinheiro, docente da Universidade Federal do Ceará (UFC), e Heloísa Bitu, coordenadora das atividades do Laboratório de Arqueologia e da Reserva Técnica da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri. Os anúncios firmam a parceria entre a Universidade Federal do Ceará e o Ministério da Cultura (MinC).
Os cursos de pós-graduação Lato Sensu em Arqueologia Social e Inclusiva na URCA e o de Formação para Agentes e Gestores Culturais e Ambientais, contemplarão os pesquisadores de arqueologia dos Estados: Ceará, Pernambuco, Piauí e Bahia.
Heloísa Bitú, coordenadora das atividades do Laboratório de Arqueologia e da Reserva Técnica da Fundação Casa Grande, explicou que os cursos são para que os pesquisadores possam ter uma imersão no território da Chapada do Araripe e, a partir desse entendimento, que eles possam pensar nos seus territórios e poder desenvolver trabalhos na perspectiva da gestão e da conservação dos patrimônios.

Logo depois, aconteceu a conferência "Ocupação Islâmica da Península Ibérica", que contou com a mediação de Conceição Lopes, pesquisadora portuguesa do Instituto de Arqueologia, Arte e Patrimônio da Universidade de Coimbra (PT), e a palestrante espanhola Susana Gómez Martínez, arqueóloga da Universidade de Évora (PT).
Antes de passar a fala para Susana, Conceição Lopes alertou que: “Temos que estar muito atentos para não deixarmos reescrever a nossa história, porque a escrita da nossa história pode ser profundamente perniciosa, e pode levarmos as circunstâncias de aceitação de algumas condições indignas para a humanidade”.
Ela também ressaltou que o trabalho de Susana se preocupa com a democracia do mundo e ele é fundamental para entendermos os problemas da situação atual da nossa sociedade.
Sobre a ocupação islâmica na Península Ibérica, a arqueóloga Susana Gómez explicou como a herança árabe se originou na região e de que forma ela ainda sobrevive na cultura portuguesa, manifestando-se na língua, na arquitetura tradicional do sul do país e nos hábitos agrícolas e alimentares.
Eles migraram para a região a partir do ano 711 e permaneceram até o século XV. Quando chegaram ao território, encontraram populações judias e cristãs que já residiam na região. Para evitar um conflito territorial, os povos envolvidos selaram o Tratado de Tudmir (ou Pacto de Teodomiro), que garantiu a liberdade religiosa e a posse de terras em troca do pagamento de tributos.
Essa troca de saberes de povos tão diferentes no mesmo território originou uma sociedade com árabes, berberes, muladis, cristãos, judeus e escravos, em que cada um destes grupos trouxe seus costumes para a cultura local, que mais tarde se espalharam pelo mundo por meio da colonização.
Entre as heranças desse período, destaca-se a alimentação. Susana Gómez explicou que o cuscuz, prato de farinha de milho que veio para o Brasil pelos colonizadores portugueses, tem origem no povo berbere. Para ela, o modo de preparo cearense, feito na cuscuzeira, remete diretamente aos utensílios históricos utilizados na receita original.

A primeira roda de conversa do dia foi sobre “As lentes da infância na gestão do território”, que contou com as participações de Lorena Morachimo, coordenadora da Rede Internacional de Cidade das Crianças (IT); e Marcelo Peroni, da Rede Brasileira de Cidades das Crianças.
Lorena Morachimo apresentou as ideias centrais de Francesco Tonucci e pontuou: “Se temos os meninos e meninas no centro da política, isso traz a garantia de direito para todos. Uma cidade boa para meninos e meninos, será boa para todos”.
Marcelo Peroni, representante da Rede Brasileira de Cidades das Crianças, comentou sobre o comitê das crianças de Jundiaí, um órgão que, por lei, instituí a garantia de que a escuta das crianças aconteça, para que elas falem sobre a gestão da cidade.
“Não é para que as crianças resolvam nossos problemas de adultos, mas na expectativa que eles possam nos apresentar a visão delas em relação a cidade” - disse Marcelo.
Lorena Morachimo e Marcelo Peroni ainda divulgaram a campanha internacional “Eu saio para brincar”. O conceito da campanha tenta dar resposta ao problema de saúde mental, que muitos estão definindo como a pandemia dos celulares. Lorena Morachimo alertou que esse equipamento está matando a infância, porque as crianças não estão desenvolvendo o pensamento crítico enquanto elas estão sendo bombardeadas de informação todos os dias.

A segunda roda de conversa “Infância, educação e literatura” foi mediada por Lorena Patrício, agente da Biblioteca Pública do Ceará (BECE), e contou com os palestrantes Marco Aurélio Vilches, músico e educador de Rada Tilly, em Chubut (AR); João Marcos Mendonça, professor e roteirista de quadrinhos de Minas Gerais; e Dim Brinquedim, artista plástico e mestre do Museu Casa de Dim Brinquedim, de Pindoretama (CE).
Lorena Patrício abriu a mesa relatando que a arte nas primeiras infâncias atravessa esse papel do aprender e do brincar durante a infância.
Marco Aurélio, músico e professor argentino, começou a roda de conversa falando sobre o seu trabalho na Patagônia Argentina com as crianças da etnia quéchua, um povo indígena andino que mantém vivas as tradições ancestrais incas. Ele disse que é um desafio ensinar a língua espanhol para essas crianças, já que elas falam predominantemente a língua quéchua, mas que através da música isso está sendo possível.
“Quando um garoto aprende a tocar um instrumento, ele separa o mundo de outra maneira, porque ele tem uma ferramenta para dizer sobre o seu mundo com a sua própria língua” - disse o professor argentino.
João Marcos Mendonça, professor e roteirista de quadrinhos, trouxe as suas experiências da sua infância e como elas o tornaram quem ele é hoje.
Ele revelou que enfrentou sérios problemas na escola, chegando a reprovar o 8° ano três vezes por dificuldades em Matemática. Desanimado, ele quase abandonou os estudos. No entanto, um conselho de sua professora de história mudou seu rumo: ela lhe disse que ele havia nascido para desenhar, mas que precisaria prestar o vestibular para isso. Inspirado por essas palavras, João Marcos persistiu na escola e decidiu ingressar na faculdade de Artes Visuais.
Mas João Marcos alertou que a educação também pode ser excludente. Na sua época de estudante, havia poucos trabalhos na área de desenho. Agora, como pai de dois filhos, ele vê que as pessoas atrapalham o processo de formação das crianças quando querem impedir o acesso a um parquinho na escola por medo de que elas se machuquem.
Por isso, ele desenvolve no projeto “Escola de Passarinhos” a ideia de que a arte ensinada na escola possa abrir mais portas para a criança. “Na Escola de Passarinhos, a criança é a protagonista real. Ela pensa, ela cria, ela produz e ela tem voz. Pode ser que seja considerada uma utopia, mas eu conheci a Fundação Casa Grande e percebi que todos meus sonhos sobre a educação poderiam ser materializados” - destacou João Marcos.
Dim Brinquedim, ou Antonio Jáder Pereira dos Santos, é mestre do Museu Casa de Dim Brinquedim. Ele produz brinquedos artesanais, utilizando a pintura, a escultura e a instalação deste produto.
O escultor ressaltou que para que a infância seja bem sucedida, ela precisa que haja a brincadeira em seu cotidiano. “Para brincar ninguém precisa de brinquedo, o melhor brinquedo é um amigo” - refletiu o mestre.
Para o mestre, o brinquedo vem depois da brincadeira. “Hoje eu faço brinquedo porque eu fui feliz na minha infância, mas isso foi tirado da escola” - revelou Dim.

Mais informações sobre o VII Seminário Internacional da Chapada do Araripe podem ser conferidas nas redes da Fundação Casa Grande, como no Instagram e no canal do Youtube.
O Seminário é uma realização do Sistema Fecomércio Ceará por meio do SESC com organização da Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri.





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